terça-feira, agosto 28, 2007

Sonetilho de amor e maçã – oficina de poesia com o poeta Glauco Mattoso



Magalena: eu gostaria de dividir com vocês, meus queridos amigos e leitores, uma experiência inesquecível, que aconteceu em uma minioficina de sonetos ministrada pelo poeta Glauco Matoso, em março de 2005, na Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura – Av. Paulista, 37). A Casa das Rosas é tema para outra postagem – aguardem.

Moscatela Roxa (a aprendiz de feiticeira): como toda boa aprendiz eu estava lá, invisível, mas presente! E não perdi detalhe algum. Quando o Glauco Mattoso entrou acompanhado de uma moça, andando com firmeza, mesmo com a bengala em seu auxílio e os óculos escuros de quem perdeu a vista do lado de fora, senti sua força tomar conta do ambiente. Cego para o mundo, eu tive a impressão de que ele nos enxergava de outra forma que nós ainda não conhecíamos. Só mesmo “vendo para crer”, no entanto, o poeta acreditou em nossos esforços para apreender-lhe a técnica poética, seus alunos, mesmo sem nos ver...

Magalena: aí, o poeta de mais de mil sonetos, considerado poeta marginal pela sociedade literária, mostrou seu verbo, humilde, pois não cobrava nada pelas aulas, e estava lá para ensinar um pouco de sua arte àquela platéia de quase vinte alunos. Ganhamos uma apostila preciosa (pela qual pagamos apenas o valor das cópias) desenvolvida por ele, onde está detalhada a arte do soneto. Difícil SIM! Pois o soneto é o tipo de construção de poesia em moldes tradicionais, respeitando-se métrica, ritmo, rimas, etc. O soneto pode ser tradicional, ou mais liberal se adaptado ao período contemporâneo – mas não se enganem, porque mesmo assim o soneto obedece a algumas regras.

Moscatela Roxa (a aprendiz de feiticeira): a Magalena apenas poetou alguns sonetos como experiência, mas esse não é o seu forte! Na referida minioficina, a Magalena e todos os alunos criaram um sonetilho (uma das formas mais simples) com o acompanhamento palavra a palavra do Glauco Mattoso. Vejam no que deu:


SONETILHO DE AMOR & MAÇÃ

A musa que eu mais queria
maçã verde de um jardim,
não olhava para mim
rubra, como eu gostaria.

Virei, então, querubim
estátua da fonte fria.
Permiti que a água em sangria
a amadurecesse, enfim.

A linda moça faceira
entregou-me seu aroma
e caiu da macieira.

Eva disse que me ama
ao quebrar uma fronteira
entre Adão e sua dama.

Madalena Barranco
Registro na FBN/EDA


Magalena: a técnica do soneto, que é uma poesia composta de quatro estrofes, sendo que as duas primeiras têm quatro versos e as duas últimas, três, é extensa e exige estudo. Mas vale a pena, porque depois de pronto, a sensação de que conseguimos criar um soneto, mesmo que simples, assim como o meu (acima) é de alegria! Para quem se interessar, o Glauco Mattoso mantém uma página na internet dedicada à técnica poética. Cliquem aqui

Moscatela Roxa (a aprendiz de feiticeira): eu me emocionei, pois ainda não atingi o grau de bruxa da minha mestra Bruxauva (sobre o controle das emoções). Isso aconteceu quando a Magalena sentou-se ao lado do Glauco e recitou o rascunho de seu sonetilho para ele. Fiquei impressionada com a memória daquele homem cego, que repetiu o que a Magalena disse e ainda deu-lhe umas dicas para melhorar a poesia! Tudo isso com incrível paciência e boa vontade. Depois, o Glauco falou um pouco dele e de seu sofrimento quando perdeu a visão devido ao glaucoma. Ele teve que se adaptar à escuridão e passou a memorizar todo o seu trabalho...

Magalena: dedico esta postagem ao querido poeta Glauco Mattoso. Suas poesias refletem sua vida desde a infância paupérrima, vivida por um menino franzino, já com problemas de visão e homossexual, e sua dolorida trajetória até hoje. É considerado poeta marginal porque a “sujeira” da humanidade está presente em cada verso seu, chegando a chocar o leitor. A seguir relaciono os links dessa postagem e os sites onde o Glauco publica.

Links
Coluna “Bolinhos de chuva” no site Cronópios
Livro:
"O sexo do verso: machismo e feminismo na regra da poesia"
Para a "Teoria do soneto", acesse o tópico "O ensaísta"
Para uma antologia nacional de sonetistas
Para conhecer a parte sonetística da obra do poeta
Casa das Rosas

Beijinhos de saudade

Um comentário:

  1. Não é mesmo interessante descobrir que as nossas limitações são apenas um sopro? Há uma frase que diz "que nós não somos aquilo que desejamos ser, somos muito mais.
    Adorei o soneto...
    Deixo aqui o meu sorriso.
    Beijos meus

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