terça-feira, novembro 06, 2007

Ora "metáforas" ! Ou será metapoesia?


Magalena: eu não preciso dizer que adoro esse recurso poético... Porque para mim:


a metáfora é a hélice da imaginação
Imagens são helicópteros que pensam na vertical,
perfuram a atmosfera e viram nave espacial.

Platinho: a METÁFORA sugere, mexe com a imaginação e faz o pensamento viajar além das possibilidades que uma palavra encerra em suas letras. Tem sido um dos recursos mais utilizados pelos poetas de todas as épocas, mas, isso não quer dizer que todas as poesias tenham que ter metáforas. Por exemplo, o poeta chileno Pablo Neruda (* 1904 † 1973), prêmio Nobel de Poesia/1971, tinha por estilo o uso desse recurso e o defendia como inestimável peça na composição dos versos, como nesse trecho de uma poesia dele, onde as metáforas estão destacadas em azul claro:


Se não fosse porque teus olhos têm a cor da lua,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque
és uma semana de âmbar,

se não fosse porque és o momento amarelo
em que
o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua perfumada
prepara passeando sua farinha pelo céu,

Autor: Pablo Neruda
Tradução do espanhol para o português: Madalena Barranco

Platinho: em "e és ainda o pão que a lua perfumada prepara passeando sua farinha pelo céu”, a musa inspiradora é diretamente representada pelo "pão que a lua perfumada prepara (...)", onde "o pão" personifica-se na própria amada!

Magalena: mas, o que é mesmo "metáfora"? Acaso será alguma "meta fora" do significado? É mais ou menos isso! Ou melhor, é palavra de origem grega "metaphorá", em latim "metaphora" = "meta" > mudança, posterioridade, além, transcendência, somada a "fora" > parte exterior, outro lugar, sempre em frente. Classificada pela gramática portuguesa como figura de linguagem, que é um desvio das normas, provocado para conferir expressividade à própria linguagem, a metáfora se encaixa na subdivisão das mesmas como figuras de palavras. Sua função é usar uma palavra com o significado de outra, considerando uma relação de semelhança entre o que ambas representam.


Platinho: uma das melhores maneiras para entender a metáfora é assistindo ao filme "O Carteiro e o Poeta" (Il Postino), protagonizado por Massimo Troisi (o carteiro Mário) que recebe aulas de poesia e basicamente de metáforas diretamente do poeta Pablo Neruda, representado pelo ator Philippe Noiret. O carteiro apaixona-se pela moça da estalagem, Beatrice, e esse é um dos motivos que o levam a pedir ao poeta chileno que lhe ensine poesia para conquistar sua musa. Em uma das cenas, o poeta pergunta a Mário como ele entenderia se ele dissesse que "o céu estava chorando" e o carteiro responde que essa é a imagem que representa a chuva. Em outra cena ambientada na praia da ilha italiana, onde Neruda foi exilado e se passa a maior parte do filme, o poeta declama a seguinte poesia e depois pergunta ao carteiro sua opinião. Leiam a poesia:

Aqui na ilha há tanto mar,
O mar e mais o mar.
Ele transborda de tempo em tempo.
Diz que sim, depois que não,
Diz sim e de novo não.
No azul, na espuma, em galope
Ele
diz não e novamente sim.
Não fica tranqüilo, não consegue parar.
Meu nome é mar ele repete
Batendo numa pedra, mas sem convencê-la.
Depois com as sete línguas verdes
De sete tigres verdes, de sete cães verdes,
De sete mares verdes
Ele a acaricia, a beija e a umedece;
E escorre em seu peito
Repetindo seu próprio nome.


Autor: Pablo Neruda

Platinho: o carteiro responde que está enjoado... Para isso basta ler a poesia em voz alta, que além das metáforas (destaquei as mais significativas em azul claro), há o ritmo do mar nos versos, que nesse caso tem o próprio balanço das ondas (vai e vem)!

Magalena: para mim, uma poesia recheada de metáforas me faz pensar em denominá-la como "metapoesia" - algo que transcende o próprio significado.


Platinho: a metáfora é um elemento que ajuda a poesia a ganhar as tão sonhadas asas da imaginação, porém, nem por isso é essencial para a composição de uma bela e perfeita poesia. Nesse trecho da poesia de Carlos Drummond de Andrade, "No meio do caminho", por exemplo, as metáforas estão ausentes, mas nem por isso, Drummond deixa de criar fortes imagens poéticas. Vejam, a seguir:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Autor: Carlos Drummond de Andrade


Bibliografia:
Dicionário Novo Aurélio - da editora Positivo;
Gramática em 44 Lições - Francisco Platão Savioli - da Editora Ática;
Apostila da oficina "Poesia e Consciência da Linguagem I", curso de Frederico Barbosa.


Bruxauva: bah, o melhor exemplo de metáfora em minha vida aconteceu quando o mago Limonada um dia me disse num rompante apaixonado: “Você é a invertebrada mais peçonhenta que eu conheci em dois mil anos”. Com todo aquele estímulo eu me senti pronta para deixar de ser cobra e virar uma jaguatirica, de tão bondosa e amável bruxinha que sou... Apesar de estar muito triste com meus leitores já que ninguém falou de minha produção no Festival Halloween... Meu vestido estava tão feio e não repararam em mim.

Beijinhos

9 comentários:

  1. Assunto deveras interessante esse. Acho que a poesia é o berço onde adormece em sono profundo a tal da metáfora. Mas no dia a dia também nos há essa "licença poética" generosa e gentil ao dizer que o "luar nos banha com a sutileza do renovar-se".
    E viva a magia, a vida e a poesia. Elementos que não podem viver distantes de nós.
    Beijos meus a você.

    Ps. Chove por aqui e o perfume da tarde já mostrou-se feito de outono e não de primavera como este deveria ser. Estamos em novembro mesmo? Pois parece-me que seja março.

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  2. Madá, estou maravilhada com sua publicação!!!

    “a metáfora é a hélice da imaginação
    Imagens são helicópteros que pensam na vertical,
    perfuram a atmosfera e viram nave espacial.”

    Dá licença mas vou publicar isso hoje, (dando os créditos a você, lógico!) em meu blog! Isso é pura associação livre de palavras! Ou seja, um dos cernes da Psicanálise.

    A análise do discurso que desnuda o percurso da libido. O dito que tem um significado mais profundo para além do que se entende de imediato!

    Vou colocar o link dessa publicação sua lá, ok? (; Tá perfeita!!!

    Beijos, moranguinha!

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  3. Você sempre fazendo gols belíssimos!!! Adoro Pablo Neruda, foi um prazer indescritível ler suas linhas. Abraços.

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  4. Lunna, parece-me de fato o outonal mês de março! Obrigada pela sua visita, sempre mágica.

    Paula, girei como uma hélice feliz ao saber que estaria lá em seu lindo blog Maçã do Topo. Que bom que gostou!!!

    Luis, eu também adooro Neruda!

    Obrigada e beijos a todos.

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  5. Madalena, adorei o seu texto com as criaturinhas maravilhosas sobre a Metáfora, inteligente, sutil, revelador, pura magia, metáfora! V. é maga por esses caminhos das metáforas com suas criaturinhas mágicas...
    grande beijo, lilian

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  6. Nesta minha 1ª visita, gostei do que vi. cheguei aqui pelo Ricardo Layol

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  7. Olá Madalena
    Estou aqui lendo este texto e adorando todo o seu Blog e sua poesia.
    Aliás estou me encontrando porque seu trabalho tem ligação com o meu.
    Parabéns!
    Aproveito para convidar a você e a todos os seus admiradores para fazer uma visita ao BLOG LIVRO ANIMADO – LIVRO ENCANTADO, um Projeto da Marionete e Saúde - Brasil.
    Lá vocês encontrarão muitas idéias para trabalhar com marionetes. http://marionetesaude.blogspot.com/
    Abraços

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  8. muito interessante seu blog...
    Gostei...
    abraço

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  9. Lilian, poetisa amiga, as metáforas fazem parte de nossas falas e às vezes nem percebemos ao construir uma delas. Obrigada!!

    Olá Vieira, muito prazer! E eu adorei sua visita. obrigada a você e ao Ricardo.

    Marionete, olá!!! Irei visitar seu blog, pois me interesso por tudo que remete ao mundo da fantasia, que é tão necessário às nossas vidas. Obrigada!!

    Amordemadrugada, muito obrigada pela visita!!!

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Plante um moranguinho com seus comentários. A Magalena e sua turma responderão por aqui, ou, diretamente em seus blogs. Obrigada.

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