quarta-feira, janeiro 30, 2008

Ora batatas! “Feira livre” paulistana – parte 2/2

Magalena: então, continuando nossa feira...




Bruxauva: espere, deixe a bruxa FALAR!!!! Essa gente é pirada. Quando derretem de calor no trânsito, reclamam; quando não há movimento, também reclamam! Quando há batatinhas, atiram tomates. Se pelo menos houvesse “sapos de sol bem sequinhos com bastante sal”, eu até que me arriscaria a freqüentar um guerramercado desses. Não há bruxa que agüente...

Mago Limonada: bah, ela acha que ninguém está ouvindo o que ela diz... A minha amada bruxinha verruguenta está tão empolgada em aparecer, que ainda não percebeu que EU já cheguei... Ouçam este mago milenar: quanto mais se quer aparecer para chamar a atenção, mais alienado do mundo se fica...


ORA BATATAS! “FEIRA LIVRE” PAULISTANA
Capítulo 2/3

Dona Magdalena abriu o saquinho de batatas bolinha e atacou o outro lado do monte, que revidou com tomates.

As lajotas brancas do impecável piso ficaram irreconhecíveis. Mas não tinha jeito – era fim de feira e dona Magdalena lembrava-se com saudade das grandes feiras livres que antes eram feitas nas ruas da cidade de São Paulo e que na presente época, aos poucos, iam desaparecendo das ruas para o interior dos supermercados. Só uma coisa não mudara – ela sempre saía arranhada ou atropelada pelos carrinhos – porque as pessoas não resistiam às ofertas e aquilo virava um ringue, onde os tomates eram disputados às cotoveladas e as batatas rolavam pelo chão. Sempre tinha um que não resistia e chutava a tal batata bolinha.

- Ah! Enfim! Suspirava dona Magdalena, empurrando o carrinho com a lista de compras na outra mão. Faltava o material de limpeza, e ela enfiou-se no setor de água sanitária e sabão, onde sempre tinha alguma demonstradora para comprovar a eficácia de um novo sabão em pó. Aproveitaria para limpar a mancha de tomate da blusa.

- Agora falta o azeite, vinagre, arroz, etc.

- Aceita provar o novo café Sensação?

- Ah, obrigada! Sem açúcar, por favor.

Bastou uma cotovelada para fazê-la derrubar o copinho plástico de café. Uma senhora reclamava que ela já estava na fila há mais tempo e ao gesticular propositalmente derramou o café de dona Magdalena, que por sorte não caiu em cima dela, mas espirrou no homem que estava ao lado. Deixou os dois discutindo e foi embora.


A nossa heroína de supermercado depois de atravessar a imensa loja sem semáforos e cruzamentos interditados até a padaria, para comprar alguns pãezinhos frescos para o lanche, enfrentou nova espera na fila. Uma senhora na frente, louca para falar com a primeira vítima que aparecesse, disparou o verbo e atirou suas lamentações e histórias sobre as noras na direção de dona Magdalena, que escolada com esse tipo de fofoqueira, fingiu que não entendia e que não falava português.

- Ufa! A mulher percebeu que não era compreendida pela outra somente depois de descarregar duas metralhadoras de palavras e escolher a próxima vítima.

- Senhora, quantos pãezinhos quer?
- Três. Torradinhos, por favor.

Com o prêmio quente no cartucho de papel, ela foi para a fila dos caixas. Tudo correu bem até a hora do troco. Faltavam moedas em circulação. Ela resolveu então, que ao chegar a casa libertaria suas moedas do porquinho.

Já no estacionamento, do local onde estava seu carro, ela podia ver melhor o imenso supermercado e aquele montão de gente digladiando-se na feirinha e pelos corredores, e percebeu que as “ruas”, tanto de fora como de dentro continuavam sendo as mesmas. A mancha de tomate não saíra da blusa branca. No fim, as histórias de sabões mágicos eram todas iguais. A mulher do carro estacionado ao lado, abriu a porta sem cuidado e raspou a porta do fusca de dona Magdalena.

- O cartão do estacionamento, senhora?!
-Ah, um momento. A fila de carros atrás, buzinava.

A bolsa foi ao chão e nada do cartão.

- Achei!!!!!

Na rua, quando pensou que estava finalmente livre, ouviu alguém chamando-a de lerda. Mas, estava tudo bem para dona Magdalena, porque ela conseguira comprar as batatas daquela super oferta, que àquela altura rolavam pelo piso do fusca setenta e quatro, a cada nova freada. A “feira livre” dominava a alma paulistana.


Fim

Madalena Barranco
Da série: “Crônicas & Verduras”.
Registro na Fundação Biblioteca Nacional – EDA


Beijinhos

3 comentários:

  1. ahahahahaahahahahah Muito mas muito legal Madalena! É a aventura de se fazer supermercado! Detesto fazer, sabia? Adorei o final!
    beijos

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  2. Olá, Madalena!

    Tenho andado sem tempo para passar por cá. E esta também é uma visitinha rápida, para desejar bom Carnaval (se for caso disso) e avisar que o seu poema é o próximo a entrar no blog Debaixo do Bulcão (mas só depois depois de terça-feira).

    Beijos

    António Vitorino

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  3. Letícia, você tem razão... É uma aventura - hehehe! No entanto, eu já, adoooro um supermercado! Beijos e obrigada!

    António, oba, que visita legal!! Não te preocupes amigo, sei que "corres" pelo mundo Web. Hum, não saio no meio da folia no Carnaval, pois prefiro vê-lo pela TV, que é mais confortável - de qualquer forma: bom Carnaval para ti também!!! E muito obrigada pela maravilhosa notícia de que meu poeminha sairá no "Debaixo do Bulcão" - OBAAAAAAA! Beijos.

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